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Lektronik | May 24, 2013

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14 Comments

Batman, já te conheço

Batman, já te conheço
Heitor De Paola

Batman: Arkham City
Plataformas: PC, PlayStation 3, Xbox 360

Essa indústria de que tanto gostamos é uma de continuações. Isso já foi dito por muitos diversas vezes, e é repetido de ano em ano, provavelmente pelo fato de que nunca deixa de ser verdade. É claro, isso não significa que títulos originais não surjam constantemente, mas, realmente, o número de sequências que existem em videogames é bastante grande. Existe uma série de razões econômicas e técnicas para que isso seja assim, e certos acontecimentos não ocorreriam se as coisas não se dessem desta maneira. O quase unanimemente aclamado Uncharted 2, por exemplo, só pôde chegar aonde chegou devido aos erros, críticas e a experiência obtida no processo de criação do primeiro.

No entanto, há momentos em que isso me causa certa fadiga. Considerando a quantidade de grandes títulos com os quais 2011 nos agraciou e outros mais que nos aguardam, eu não posso deixar de reparar que meu ânimo é menor do que aquele que eu tive nos três últimos anos, justamente pela grande quantidade de continuações. Dead Space 2, Uncharted 3, Modern Warfare 3, Battlefield 3, Killzone 3, InFamous 2, Gears of War 3, Forza 4 são só alguns exemplos de uma lista que poderia ser bem mais longa. E eu nem posso criticar pontualmente todos esse títulos, já que o tempo que passei com muitos desses não foi o suficiente para formar uma opinião concreta. Porém, ao menos quando distante deles, falta-me aquele ânimo que nos faz pular de ansiedade e contar os dias para que tenhamos, enfim, o aguardado jogo em mãos.

Eu estava seguindo com essa mentalidade, com a ideia de que passaria os últimos meses do ano pensando dessa maneira, aguardando o término desse período para que, eventualmente, coisas originais voltassem a aparecer. Foi então que eu joguei Batman: Arkham City. A nova aventura do herói é, em sua maior parte, bastante parecida com Arkham Asylum. Quase todas as mudanças são incrementais, sem alterarem o cerne do que compôs o jogo do homem-morcego de 2009; ou seja, trata-se de mais um título que se encaixa nos padrões que mencionei acima. Apesar disso, Arkham City me prova completamente errado pelo simples motivo de que existem coisas que são tão boas que não há nenhum problema em a vermos uma segunda vez.

A premissa é completamente absurda, porém dentro dos padrões do que costuma ocorrer nos quadrinhos. Sendo chefiada por Hugo Strange, uma parte da cidade de Gotham é fechada e isolada para se tornar uma prisão. Lá, todos os piores bandidos são colocados juntos, mais ou menos como em Fuga de Absolom (exceto a parte da ilha), sem nenhuma estrutura hierárquica de ordem. Eu acho que qualquer um consegue ver as falhas dessa ideia e os problemas que poderiam surgir mas, ei, o prefeito de Gotham aprovou o projeto e assim foi feito.

O caos se instala no cerco; alguns dos assim chamados “super-vilões” passam a querer ter controle de todo o território dentro dos muros, criando um ambiente constantemente hostil. Presos políticos e inimigos de Strange são misteriosamente levados também para a prisão, fato que acaba por fazer com que Bruce Wayne também seja encarcerado. E em meio a toda essa guerra de facções e de pessoas que estão apenas tentando sobreviver que aquilo que considero ser a maior diferença entre Asylum e City aparece.

Controlar a Mulher Gato é muito legal, mas a participação dela na campanha poderia ter sido mais interessante.

Arkham Asylum já passava a sensação de acontecimentos constantes. O Coringa estava continuamente dizendo coisas através dos alto-falantes, nós tínhamos certa noção de outros eventos através da Oráculo e as conversas tidas entre capangas genéricos pincelavam e ofereciam alguns detalhes sobre aquilo que ocorreu e ocorreria ainda naquela noite. Arkham City se utiliza dessas mesmas artimanhas, porém as eleva em potência passando a impressão de que estamos em um ambiente cujas partes estão todas interligadas.

Os bandidos menores estão sempre discutindo, sem entender o que exatamente está acontecendo pelos cantos daquele pedaço da cidade. Alguns ponderam sobre sua lealdade a um super-vilão, enquanto outros questionam os motivos daquele que seguem. É principalmente através deles que vamos juntando pequenas peças e entendendo melhor o quadro todo. Cada um desses capangas não é detentor da verdade, e muitos deles estão sendo manipulados ou coagidos sem perceberem. Entretanto, por estar acima de todos eles, Batman – e o jogador – conseguem enxergar tudo por uma outra perspectiva, e assim construir o cenário. Esse método narrativo não é novo, porém foi executado de maneira brilhante em Arkham City; quase desprovido de diálogos de exposição ou de cinematics, o jogo faz com que você entenda tudo que precisa entender e, caso assim queira, tenha a liberdade de se aprofundar e ir atrás de mais detalhes. Essa característica foi, em parte, uma das coisas que fez com que Arkham Asylum fosse tão interessante, por ter sido a primeira vez que Batman apareceu em videogames com traços de detetive, e não apenas alguém que desfere socos e chutes.

Por estar toda hora recebendo informações de cantos variados, sair por aí explorando esse reduto de Gotham é recompensador por conta própria. O fato de que tudo é bonito de ser ver apenas aumenta o incentivo de se fazer isso. A cidade podia ser vista ao longe em Arkham Asylum, mas nunca nos aproximávamos dela. De certa maneira, Arkham City ainda nos deixa em um ambiente periférico, porém muito mais próximos do que anteriormente, nos possibilitando explorar alguns monumentos que compõem a metrópole. Gotham é um personagem integral às histórias do Batman, e tê-la em uma posição de maior destaque traz o frescor necessário que a aventura, composta de tantas partes já conhecidas, necessita. O fato de haver muitas tarefas interessantes para se fazer nesse ambiente ajuda imensamente a torná-lo mais atraente. Certos vilões e outras figuras possuem missões próprias e, enquanto não é preciso completar nenhuma delas para se chegar ao final do jogo, o incentivo de vê-las concluídas foi para mim tão grande quanto o de chegar ao término da trama.

Dito isso, creio que aquilo que provavelmente dá equilíbrio e torna o jogo tão divertido (e faz com que o Batman seja um herói tão legal) é a maneira como, nas próprias mecânicas, a fragilidade do detetive fica evidente. Há toda a questão dos distúrbios na psique do protagonista, vinda da morte de seus pais, mas não é desse tipo de fragilidade que estou falando. Digo do fato de que ele não é imune a tiros, facadas ou simplesmente dano contínuo. Independente da quantidade de traquitanas que ele possa ter em seu arsenal, das habilidades cuidadosamente desenvolvidas e da confiança que ele passa com suas constantes frases de impacto, Batman continua propenso ao perigo que o circunda. Tal característica aparece através da jogabilidade quando entramos nas áreas que podemos chamar de arenas, locais fechados em que os inimigos possuem armas de fogo. Eliminar a oposição, um a um, sem que eles consigam determinar a posição do herói é essencial, pois caso contrário eles abrirão fogo e não demorará para que Batman seja derrotado. É só usando de suas habilidades e itens que é possível sair dessas situações ileso.

O Pinguim é o vilão mais maléfico que já vi. Sério, ele deixa o Coringa no chinelo.

Qualquer um que tenha jogado Arkham Asylum deve estar pensando “isso também era assim no primeiro jogo” e, bem, vocês estão certos. Se há alguma grande diferença em como essa mecânica foi aplicada em City em relação a Asylum, ela me passou despercebida. O que há de diferente é incremental. Batman tem em mãos alguns novos itens, como um mecanismo que desativa armas inimigas temporariamente, e golpes adicionais. Os capangas, por sua vez, também contam às vezes com uma ajuda extra, como um aparelho que impede que a “visão de detetive” funcione. Nada disso muda a maneira como essas partes são jogadas, mas aqui volto ao argumento que fiz no início. Na implementação original dessas mecânicas, não havia nada que demandasse uma mudança, tudo já funcionava muito bem. O resultado é que mesmo ainda se tratando (de maneira geral) da mesma coisa, usar da furtividade e das diferentes bugigangas continua sendo extremamente divertido e satisfatório, mesmo que não seja mais tão novo quanto anteriormente.

O mesmo pode ser dito sobre o combate. Ele continua sendo uma espécie de jogo de ritmo, em que o timing escolhido entre socos e contra-ataques determina o seu sucesso no combate. O que há de diferente são os utensílios que podem ser usados no meio da luta e movimentos ativados de acordo com o seu contador de combos. Novamente, eu não vejo problemas de que o combate permaneça dessa maneira. Eu não acho que nenhum outro jogo de ação tenha conseguido superar a Rocksteady em combates contra grandes grupos. As lutas permanecem, do início ao fim, desafiadoras, sempre ágeis e pedindo que o jogador mantenha-se atento. Além disso, há o deleite de assistir as animações feitas durante os confrontos, que se adaptam à quantidade de inimigos contra-atacados e partes do cenário presente, como paredes que estejam por perto.

Eu poderia continuar enumerando coisas que sofreram leves alterações entre os dois jogos, mas acho que o ponto já está ilustrado. Pensando um pouco sobre ocasiões passadas, eu tenho certeza de já ter entrado algumas vezes em discussões, falando sobre o valor da originalidade, de o quão mais interessante é quando ideias novas surgem. De maneira alguma eu nego esse argumento, e continuarei defendendo o novo em lugar do reciclado. Porém, é bom que surjam coisas como Batman: Arkham City, que mostrem que mesmo que algo já seja conhecido, isso não o impede de agradar. É bem possível que a ausência de fadiga com a fórmula se dê pelo fato de Akrhan City ser apenas o segundo jogo de uma franquia, estando ainda longe de exaurir suas ideias que, dois anos atrás, eram tão frescas e inovadoras. Isso, no entanto, seria diminuir os êxitos de um jogo que é, pura e simplesmente, muito bom. Claro, há momentos de estranheza nos controles, em que Batman fica preso e em beiras, ou quando, por qualquer motivo, ele não vai em direção ao capanga escolhido, quebrando assim o contador de combos. A implementação da Mulher-Gato também não é das mais inspiradas, sendo relevada a um papel muito secundário e, na maior parte do tempo, irrelevante. No entanto, cada vez que qualquer uma dessas coisas surgia e provocava frustração, não era preciso mais do que cinco minutos para que eu já estivesse fazendo outra coisa divertida e interessante, e foi essa a impressão que permaneceu comigo após o término do jogo (e, diga-se de passagem, o pequeno fato que acontece durante os créditos é, para mim, a coisa mais legal a acontecer nesse momento em qualquer jogo).

A Rocksteady alterou a nossa percepção de jogos de super-heróis, nós não os encaramos mais como algo que será “okay” na melhor das possibilidades. E, certamente,  serão precisos muitos títulos do calibre de Superman 64 para que essa nossa impressão volte a ser como anteriormete.

Para terminar, deixo com vocês o fato que melhor ilustra o quão animado Arkham City me deixou: após cerca de dez anos sem acompanhar quadrinhos mensais, eu passei a ler a série principal dos “novos 52” do Batman, e estou a acompanhando assiduamente.

Comments

  1. Nunca gostei do Batman nos quadrinhos. Pra mim ele não funciona. Na verdade eu não o conhecia. Só a partir do filme (TDK) que prestei atenção no personagem, e em seguida o Asylum que me fez apaixonar pela história do Morcego. Estou amando City e fazendo diversas missões secundárias, ou apenas batendo nos delinquentes de Arkham. Esse é meu GOTY.
    E jura que essa dos novos 52 é boa? Vou atrás.

    • O problema do Batman dos quadrinhos é que a DC não admite que ele e o Coringa tem superpoderes. O superpoder do Batman é a Super Fodacidade, que permite a ele bater em qualquer inimigo (até Superman e Supergirl já apanharam dele), e consegue resolver QUALQUER problema.

      Já o Coringa tem o mesmo poder daquele vilão do Yuyu Hakusho, o Karasu do time Toguro. O Coringa consegue criar explosivos com seus poderes mentais. É fisicamente impossível implantar tantas bombas em tantos lugares de difícil acesso tão rapidamente, como foi o caso dos barcos e do hospital no filme, sem que haja uma explicação sobrenatural. hehehe

      Uma reclamação dos novos 52 que muita gente faz é que qualquer coisa é motivo de porradaria. Ação demais e trama de menos. Mas muita gente diz isso se baseando na HQ da Liga da Justiça e do Batman. Estou gostando mais do Liga Internacional e do Batgirl, por exemplo.

      O Liga Internacional lida melhor com os problemas do time e seus conflitos de maneira mais complexa. Já o Batgirl explora melhor as fraquezas da Barbara Gordon e seus medos, o que faz cada ato da heroína mais dramático e perigoso, enquanto o Batman e sua Super Fodacidade NUNCA se dá mal.

      • Fernando, eu não li Liga da Justiça. Li os três primeiros da Batgirl e é bem isso que você disse. Só espero que eles não fiquem presos demais apenas nesse aspecto, porque a Barbara apenas reclamando de como não está mais em forma (apesar das pernas incrivelmente torneadas apesar de ter estado em uma cadeira de rodas) deverá encher o saco daqui um tempo. E você chegou a ver o Batwoman? Dos novos 52 que li é um dos que mais gostei.

    • Eu não tenho muito como compara com a qualidade dos quadrinhos que vieram anteriormente, porque, como disse, há anos que não lia gibis mensais. Mas estou achando esses novos divertidos, e, pelo que eu vi, me parece que eles são um bom ponto para se começar a acompanhar o que vem acontecendo. Ao mesmo tempo, eu acho que a facilidade de comprar os quadrinhos através do app da DC no iPad é uma das coisas que fizeram com que eu os acompanhe.

  2. Off-topic: Heitor, como você se sente tendo inspirado esse sujeito:

    http://www.facebook.com/alexbrummachado

    ?

  3. JMF

    Como não tinha jogado o Asylum, comprei ele junto com o Arkham City quando o segundo foi lançado para que eu pudesse acompanhar a história do começo. Joguei AA compulsivamente e terminei o jogo (e os desafios do Charada) em tempo recorde.

    Ato contínuo, comecei a jogar Arkham City, e talvez tenha sido esse o meu erro. Realmente não há nada de errado no fato dos jogos serem semelhantes, mas parece que no meio da história de AC eu fiquei saturado de troféus, grapple points, arenas e da quantidade infindável de novos super-vilões que o jogo nos apresenta. Talvez eu realmente só precise de um tempo pra respirar.

    Em tempo: entre todas as melhorias sutis que AC apresenta em relação a AA, sem dúvida a que funciona melhor é uma que mereceu destaque na sessão joguinho: você não consegue ficar no detective mode por muito tempo, e isso é bom.

  4. Rafagoom

    Senhoras e senhores, acabo de terminar Batman Arkham City e que final excelente. Jogo do ano é assim. Roteiro ótimo e trilha sonora melhor ainda.
    Achei demais o modo como utilizaramo silêncio nos créditos finais e após *aquilo* o “som do vácuo”.
    Quero me casar com a Rocksteady, mesmo ela sendo O estúdio :3

  5. Cheetara (ou Mario)

    Claro que o Pinguim é o mais malvado. Ele é o Burgess Meredith.

  6. Nunca fui muito fã dos quadrinhos do Batman, mas considero “O Cavaleiro das Trevas”, do Frank Miller, uma das HQs mais fodas que já li.
    Rafagoom e Heitor, recomendo fortemente que a leiam (são só 3 edições, se não me engano).

    Ah, obviamente to falando da primeira versão, não o Retorno.

    • Te contar que tenho essa e a Piada Mortal. Acho as duas muitíssimamente demais :D

      • Pedro Correa

        A piada mortal é o melhor HQ do Batman e uns dos melhores da historia, mostra fragilidade do batman e a historia mais aceita do coringa (o meu personagem favorito dos HQ).
        Só o genio do Alan Moore pode fazer isso.

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